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Milton Hatoum é o novo imortal da Academia Brasileira de Letras
Carol Avansini
30/04/2026 21:11:08

Em abril de 2026, Milton Hatoum tomou posse na cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras, no Petit Trianon, no Rio de Janeiro. O escritor amazonense ocupa a vaga deixada pelo jornalista Cícero Sandroni, morto em junho do ano passado, e entra para a história como o primeiro membro nascido no Amazonas a integrar a instituição fundada por Machado de Assis.

Hatoum foi recebido pela acadêmica Ana Maria Machado. O colar foi entregue por Rosiska Darcy, o diploma por Lilia Moritz Schwarcz e a espada pelo decano José Sarney.

Três vezes vencedor do Prêmio Jabuti, com mais de 500 mil exemplares vendidos em 17 países, ele já era um dos nomes mais reconhecidos da literatura brasileira contemporânea. A posse na ABL formaliza o que os leitores já sabiam há décadas.

De Manaus para o mundo

Milton Hatoum nasceu em Manaus em 1952. Aos 16 anos, mudou-se para Brasília. Na década de 1970, foi para São Paulo, onde se formou em arquitetura pela FAU-USP e desenvolveu pesquisa sob orientação do geógrafo Milton Santos. Depois vieram Madri, Paris, um mestrado em literatura latino-americana e anos de docência de língua e literatura francesa na Universidade Federal do Amazonas.

A trajetória acadêmica não ficou restrita ao Brasil: Hatoum foi professor visitante em Berkeley e na Sorbonne, escritor residente em Yale e Stanford, e conferenciou em instituições como Princeton e a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Em 2017, o governo francês o nomeou Officier de l'Ordre des Arts et des Lettres.

A escrita de ficção, no entanto, é o que define sua obra. Hatoum publicou nove livros de ficção — romances, contos e crônicas — e construiu uma voz literária inconfundível: a Amazônia como território físico e simbólico, a memória como estrutura narrativa, o tempo que corrói e revela.

Ao ser eleito para a ABL, em agosto do ano passado, disse o que pretende fazer com o novo posto: "Quero trazer a literatura para o cotidiano das pessoas."

Por onde começar: os livros essenciais de Milton Hatoum

Se você ainda não leu Milton Hatoum ou quer revisitá-lo, aqui estão os pontos de entrada.

Dois Irmãos (Companhia das Letras, 2000) 

O romance mais lido de Hatoum e um ponto de partida seguro. Narrado por Nael, filho de uma empregada doméstica, o livro acompanha a rivalidade entre os gêmeos Yaqub e Omar em uma família de imigrantes libaneses em Manaus. A cidade aparece em transformação — da belle époque à decadência —, e o passado nunca é linear. Eleito o melhor romance brasileiro do período 1990–2005 em pesquisa dos jornais Correio Braziliense e O Estado de Minas. Foi adaptado para minissérie pela TV Globo, com direção de Luiz Fernando Carvalho. Publicado em mais de 14 países.

Relato de Um Certo Oriente (Companhia das Letras, 1989)

O romance de estreia, é já uma declaração de intenções. Uma jovem volta a Manaus para o enterro da mãe adotiva e reconstrói a história da família por meio de vozes e fragmentos. A narrativa polifônica, a memória instável e a Amazônia como cenário afetivo estão todos aqui, desde o começo. Vencedor do Prêmio Jabuti.

Cinzas do Norte (Companhia das Letras, 2005) 

Considerado por muitos críticos o seu romance mais ambicioso. Acompanha a trajetória de Mundo, filho de um coronel da borracha, que quer ser artista numa Manaus que não tem espaço para isso. É um livro sobre conflito de gerações, ditadura militar e o preço de ser quem você é. Venceu o Prêmio Jabuti de Melhor Romance, o Grande Prêmio da Crítica da APCA e o Prêmio Portugal Telecom, entre outros.

A Noite da Espera (Companhia das Letras, 2017) 

Primeiro volume da trilogia O lugar mais sombrio, o livro acompanha Martim, um jovem exilado em Brasília durante a ditadura militar, separado da mãe e em conflito com o pai. É um romance de formação atravessado pela história política do Brasil. Venceu o Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano de 2018.

Dança de Enganos (Companhia das Letras, 2025) 

O volume final da trilogia. Lançado no final do ano passado, fecha o arco de Martim com a maturidade narrativa de um autor no auge da forma. Boa pedida para quem já percorreu os dois volumes anteriores — ou motivo suficiente para começar a trilogia do zero.

 

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